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sábado, 25 de setembro de 2010

Rang de Basanti (2006, Índia)


Esse blog está virando especialista em cinema indiano, né? Mas é que ultimamente o aventureiro cinéfilo está assistindo muitos filmes desse país, encantado por ter descoberto uma indústria de cinema tão rica e muito discriminada no ocidente. Mas é claro que nem tudo são flores e Rang de Basanti é um exemplo disso.

Assistindo ao seu trailer no youtube (com áudio em hindu e sem legendas) achava que era algo relacionado a viajar, à liberdade, por aí. O cartaz é lindo e também dá essa impressão. Não, não é um filme sobre mochileiro, mas tem sim o seu lado de liberdade, nesse caso a política. Acontece que para mim um filme para ser bom você precisa comprar sua ideia e curti-la ao longo da projeção, acompanhando o seu desenrolar e desfecho. Pelo menos não foi o que aconteceu comigo ao assistir Rang de Basanti.


O longa procura defender a ideia de que devemos protestar a favor dos nossos direitos como cidadão de uma pátria e cumprir com nossos deveres, nem que para isso demos nossas vidas ao nosso país. Argumento bonito, mas mal executado. A história começa quando uma jornalista inglesa vai à Índia pra rodar um filme sobre revolucionários indianos do começo do século XX (quando a Índia era ainda colônia da Inglaterra). Fascinada por essa história de luta, ela convoca alguns estudantes de uma universidade para serem os atores da película a ser rodada e durante esse processo eles passam a entender a importância de lutar por uma pátria melhor.

Acontece que o roteiro é inverossímil e muitas vezes forçado, e é aí que há o incômodo. Como justificar que a inglesa foi ao país hindu sem grana e roda um filme com proporções épicas (tudo bem que muito daquilo era de caráter imaginário, mas boa parte não)? Ou que alunos extremamente desinteressados no seu país virem abruptamente militantes cometendo atos hediondos? E que clímax exagerado é aquele com assassinatos gratuitos? Não, não consegui comprar essa ideia do filme porque apesar de quase 3 horas (muito chatas por sinal) de duração o roteiro é fraco e não fortalece o argumento. Se fizesse isso, seria mais coerente.

Uma coisa comum no cinema indiano é a presença de números musicais ou clipes. Em Rang de Basanti estranha-se que na primeira hora não há cena musical alguma, mas a partir disso há um exagero, com músicas sendo executadas diretamente (intervalos de menos de cinco minutos entre cada uma). Demonstra-se assim um problema de edição também.


Os personagens pelo menos são carismáticos e é isso que faz com que provavelmente o espectador queira saber o desfecho dessa salada cinematográfica. E salada pode também ser considerado o gênero no qual esse filme se encontra: no início é uma comédia bem light, passa por um drama histórico e vira um filme de ação "terrorista" com direito a litros de sangue. Há limite ao bom senso!

Rang de Basanti é um filme que agradou muita gente por ter esse espírito revolucionário e de ser um grito de liberdade política. Ele foi o candidato da Índia para o Oscar 2007 e foi indicado ao BAFTA de melhor filme em língua não-inglesa. Tem seus méritos, claro, mas pelo menos para mim ele é histérico e meio piegas, o que não me fez comprar sua ideia e poder curti-lo.

P.S.: Os três atores principais de 3 Idiotas, filme indiano predileto do aventureiro cinéfilo está no elenco de Rang de Basanti.

Como cinema indiano não é divulgado no Brasil, vai o link para download de torrent e legenda (o filme também é conhecido pelo título Pinta-me da Cor do Açafrão):


Nota: 5,0

Trailer (sem legendas):

sábado, 28 de agosto de 2010

A Origem

“O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente” (Freud, 1899). Durante seus estudos psicanalíticos, Freud deparou-se com a interpretação dos sonhos e verificou que nosso inconsciente pode manifestar-se através de alguns canais: os sintomas, os chistes, os atos falhos, os lapsos e os sonhos. O conteúdo dessas manifestações revela impulsos e desejos reprimidos tanto pelas pressões externas (as regras sociais), quanto pelas internas (repressões acumuladas desde a infância). Um psicanalista tem acesso ao conteúdo dos sonhos de um paciente através do relato do mesmo, mas vale salientar que aquilo que nos lembramos não é sua totalidade, além do que o inconsciente utiliza-se de disfarces para que seu conteúdo não seja revelado.

É ao redor do sonho como mecanismo de acesso ao inconsciente humano que gira o roteiro de A Origem. Cobb (Leonardo DiCaprio) e Arthur (Joseph Gordon-Levitt) são ladrões nos sonhos, ou seja, eles entram no inconsciente da vítima enquanto ela dorme (e eles também) para roubar a informação que precisam. Nada melhor que ir até a origem para isso. A trama aparentemente complexa inicia-se com os dois tentando roubar uma informação do inconsciente de Saito (Ken Watanabe), o qual queria ver com os próprios olhos (ironicamente fechados) esse tipo de ação já que iria contratar esse serviço. Saito não quer roubar algo de Robert Fischer Jr. (Cillian Murphy), herdeiro de uma mega corporação, mas sim implantar uma ideia capaz de modificar o rumo das coisas (nesse caso, que o pai dele o ama). Para realizar essa tarefa, os três contam com a ajuda da estudante em arquitetura Ariadne (Ellen Page) e o falsário Eames (Tom Hardy), mas também com o atrapalhamento da ex-mulher de Cobb, Mal (Marion Cotillard), que tende a estragar as coisas.

Christopher Nolan foi muito bem sucedido nesse projeto: há muita qualidade no elenco, no roteiro, na direção, nos efeitos especiais, no ritmo frenético da história, na trilha sonora. O elenco está afinado, em sintonia, contando até com a participação do Michael Cane como o pai de Leonardo DiCaprio. Esse último anda acertando os projetos no qual participa, inclusive o anterior, Ilha do Medo, possui semelhanças com A Origem: relacionamento mal-resolvido com a ex-mulher envolvendo tragédia, temática psicológica, trama complexa, etc. Ellen Page é dona de uma personagem importante para trama e para o espectador, pois graças a ela é que muito do que ocorre é explicado, visto que é a novata do grupo. Marion Cotillard está excelente como a vilã Mal (sem trocadilhos em português), demonstrando mais uma vez que é uma atriz completa e pode ser tão boa em outros papéis quanto foi em Piaf.

O roteiro é muito inteligente, criativo e artístico, demonstrando que o blockbuster pode caminhar junto com o chamado filme de arte. A trama é aparentemente complexa, mas logo no começo nós somos apresentados à ideia do sonho em três camadas e a partir disso as informações são apresentadas conforme necessárias. A complexidade mesmo acontece no final, pois esse fica aberto a interpretações, o que é um ótimo recurso, capaz de gerar discussões intermináveis entre os espectadores. O clímax (a partir do momento que há o chute do primeiro sonho) dura quase 50 minutos e é capaz de gerar tensão na platéia, ainda mais sendo acompanhada pela arrepiante trilha sonora do mestre Hans Zimmer. O ritmo é frenético, capaz de fazer com que as 2 horas e 28 minutos de projeção pareçam 1 hora e meia (inverso ao tempo dos sonhos, que parecem mais longos que a realidade). Falto ainda comentar um elemento muito importante no filme: os efeitos especiais, que são espetaculares. É de cair o queixo a batalha sem gravidade de Arthur nos corredores do hotel ou Paris sendo dobrada como folha de papel ou o limbo com os prédios destruídos. Há outra cena brilhante que é aquela em que a Ellen Page abre umas portas-espelho e é como se não houvesse uma câmera filmando aquilo.

Christopher Nolan demonstra mais uma vez que é um diretor brilhante, capaz de criar filmes instigantes, cheios de mistério e inteligentes como Amnésia e O Grande Truque. Alguns críticos acusam-no de plágio à história do tio Patinhas ou que é apenas um filme de assalto embrulhado em conceitos de sonhos ou que por mais que seja revisto, a história não tem lógica e nunca o final será realmente desvendado ou que a trilha sonora mais parece som de vuvuzelas. Talvez sejam comentários daqueles que esperavam mais ou querem ser do contra de um dos filmes mais esperados de 2010. Uma coisa acho que Nolan conseguiu: reunir um elenco invejável numa trama ao mesmo tempo instigante e inteligente, capaz de criar um longo e tenso clímax, além de ter uns dos melhores efeitos especiais vistos no cinema em toda sua existência, gerando um filme ao mesmo tempo “pipoca” e artístico. Até então atribuía a Amnésia o título de sua obra-prima, mas depois de A Origem isso é algo a se pensar.

Nota: 10

Trailer: