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sábado, 28 de agosto de 2010

A Origem

“O sonho é a estrada real que conduz ao inconsciente” (Freud, 1899). Durante seus estudos psicanalíticos, Freud deparou-se com a interpretação dos sonhos e verificou que nosso inconsciente pode manifestar-se através de alguns canais: os sintomas, os chistes, os atos falhos, os lapsos e os sonhos. O conteúdo dessas manifestações revela impulsos e desejos reprimidos tanto pelas pressões externas (as regras sociais), quanto pelas internas (repressões acumuladas desde a infância). Um psicanalista tem acesso ao conteúdo dos sonhos de um paciente através do relato do mesmo, mas vale salientar que aquilo que nos lembramos não é sua totalidade, além do que o inconsciente utiliza-se de disfarces para que seu conteúdo não seja revelado.

É ao redor do sonho como mecanismo de acesso ao inconsciente humano que gira o roteiro de A Origem. Cobb (Leonardo DiCaprio) e Arthur (Joseph Gordon-Levitt) são ladrões nos sonhos, ou seja, eles entram no inconsciente da vítima enquanto ela dorme (e eles também) para roubar a informação que precisam. Nada melhor que ir até a origem para isso. A trama aparentemente complexa inicia-se com os dois tentando roubar uma informação do inconsciente de Saito (Ken Watanabe), o qual queria ver com os próprios olhos (ironicamente fechados) esse tipo de ação já que iria contratar esse serviço. Saito não quer roubar algo de Robert Fischer Jr. (Cillian Murphy), herdeiro de uma mega corporação, mas sim implantar uma ideia capaz de modificar o rumo das coisas (nesse caso, que o pai dele o ama). Para realizar essa tarefa, os três contam com a ajuda da estudante em arquitetura Ariadne (Ellen Page) e o falsário Eames (Tom Hardy), mas também com o atrapalhamento da ex-mulher de Cobb, Mal (Marion Cotillard), que tende a estragar as coisas.

Christopher Nolan foi muito bem sucedido nesse projeto: há muita qualidade no elenco, no roteiro, na direção, nos efeitos especiais, no ritmo frenético da história, na trilha sonora. O elenco está afinado, em sintonia, contando até com a participação do Michael Cane como o pai de Leonardo DiCaprio. Esse último anda acertando os projetos no qual participa, inclusive o anterior, Ilha do Medo, possui semelhanças com A Origem: relacionamento mal-resolvido com a ex-mulher envolvendo tragédia, temática psicológica, trama complexa, etc. Ellen Page é dona de uma personagem importante para trama e para o espectador, pois graças a ela é que muito do que ocorre é explicado, visto que é a novata do grupo. Marion Cotillard está excelente como a vilã Mal (sem trocadilhos em português), demonstrando mais uma vez que é uma atriz completa e pode ser tão boa em outros papéis quanto foi em Piaf.

O roteiro é muito inteligente, criativo e artístico, demonstrando que o blockbuster pode caminhar junto com o chamado filme de arte. A trama é aparentemente complexa, mas logo no começo nós somos apresentados à ideia do sonho em três camadas e a partir disso as informações são apresentadas conforme necessárias. A complexidade mesmo acontece no final, pois esse fica aberto a interpretações, o que é um ótimo recurso, capaz de gerar discussões intermináveis entre os espectadores. O clímax (a partir do momento que há o chute do primeiro sonho) dura quase 50 minutos e é capaz de gerar tensão na platéia, ainda mais sendo acompanhada pela arrepiante trilha sonora do mestre Hans Zimmer. O ritmo é frenético, capaz de fazer com que as 2 horas e 28 minutos de projeção pareçam 1 hora e meia (inverso ao tempo dos sonhos, que parecem mais longos que a realidade). Falto ainda comentar um elemento muito importante no filme: os efeitos especiais, que são espetaculares. É de cair o queixo a batalha sem gravidade de Arthur nos corredores do hotel ou Paris sendo dobrada como folha de papel ou o limbo com os prédios destruídos. Há outra cena brilhante que é aquela em que a Ellen Page abre umas portas-espelho e é como se não houvesse uma câmera filmando aquilo.

Christopher Nolan demonstra mais uma vez que é um diretor brilhante, capaz de criar filmes instigantes, cheios de mistério e inteligentes como Amnésia e O Grande Truque. Alguns críticos acusam-no de plágio à história do tio Patinhas ou que é apenas um filme de assalto embrulhado em conceitos de sonhos ou que por mais que seja revisto, a história não tem lógica e nunca o final será realmente desvendado ou que a trilha sonora mais parece som de vuvuzelas. Talvez sejam comentários daqueles que esperavam mais ou querem ser do contra de um dos filmes mais esperados de 2010. Uma coisa acho que Nolan conseguiu: reunir um elenco invejável numa trama ao mesmo tempo instigante e inteligente, capaz de criar um longo e tenso clímax, além de ter uns dos melhores efeitos especiais vistos no cinema em toda sua existência, gerando um filme ao mesmo tempo “pipoca” e artístico. Até então atribuía a Amnésia o título de sua obra-prima, mas depois de A Origem isso é algo a se pensar.

Nota: 10

Trailer:

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O Último Mestre do Ar


Pessoal, isso não é um filme, é uma bomba! Eu já desconfiava que o negócio era ruim, só fui ver porque minha amiga ganhou um par de convites e me chamou (em 3D ainda mais). Nem o 3D salva! É a primeira dica que dou àqueles que ainda acham que esse filme vai prestar: NÃO ASSISTAM EM 3D, é a maior enrolação do mundo. Esse filme não foi filmado com câmeras 3D, mas sim de forma convencional e convertido na pós-produção. Resultado: é um 2D e meio - os atores não estão em 3D, mas sim o cenário, no qual é usado um truque de cortes de imagens e elas parecem ter profundidade, só parecem. Só isso! Não espere nada indo na sua direção, nem uma inserção no filme devido à profundidade trabalhada. Tem nada disso. É um filme 2D com uma leve profundidade (mal feita, aliás).

M. Night Shyamalan está bom de se aposentar. Ele sofre do mal do primeiro sucesso, nesse caso, "O Sexto Sentido". Natural que o cara faça uma obra-prima como aquela e o público e a crítica esperem mais dele, mas Shyamalan só deu passo para trás. O que é "Corpo Fechado" senão uma charopada sobre super-heróis? E "Sinais", com aquele final tosco, sem contar a aparição medonha dos ET´s? "A Vila" eu fico até calado, o final surpreende e ele brinca com a cara do espectador. "A Dama na Água" não tem final surpreendente, mas a história é bonitinha (sem contar a belíssima trilha sonora). Aí de novo ele derrapa com aquela porcaria de filme de terror "Fim dos Tempos", que só se salva as fortes cenas de suicídio. Mas a coisa fica feia mesmo é com esse "O Último Mestre do Ar": roteiro fraco (e não sei como assinado por ele), atores péssimos, filme chato, sem graça. Os efeitos especiais são bons, ok, a fotografia e o figurino também, mas fica por aí.

Na pré-estreia que fui caíram na besteira de exibirem-no dublado. Cara, que dublagem ruim é aquela? Se brincar, que dublagem boa é aquela, porque eu ainda estou pensando se eles não fizeram jus às atuações ruins dos atores e dublaram de acordo com eles. Pode ser isso...

Enfim, minha dica é: não perca seu tempo vendo "O Último Mestre do Ar", a não ser se você assistia o desenho na tv ou se tem menos de 14 anos.

Nota: 2,5 (por causa da produção cara)


Trailer da bomba:

sábado, 31 de julho de 2010

Tudo Pode Dar Certo


Woody Allen. Você pode nunca ter assistido um filme dele, mas certamente já ouviu ou leu seu nome em algum lugar. É, sem dúvidas, um dos maiores diretores da história do cinema mundial, seja pela qualidade de seus filmes (além de diretor, é roteirista dos mesmos e muitas vezes ator), seja pela quantidade de obras. Tudo bem, ele já deu suas mancadas como Dirigindo no Escuro (2002), mas também tem obras-primas como Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977 - melhor chamar de Annie Hall, né, porque esse título em português... puts), A Rosa Púrpura do Cairo (1985), Match Point (2005), entre outros.

Eu admito que preciso conhecer mais suas obras para poder falar melhor dele, mas vamos ao filme em questão. Depois do divertido Vicky Cristina Barcelona (2008), veio Tudo Pode Dar Certo (2009), que é mais divertido ainda. Até agora um dos melhores filmes dos cinemas de 2010. É uma comédia leve e utilizando uma expressão tosca, de "rachar o bico", e isso em boa parte graças ao personagem de Larry David. Ele é Boris, mas que podia muito bem ser chamado de Boring (chato), o qual é hipocondríaco (para ter noção ele canta "Parabéns para você" duas vezes quando está lavando as mãos para matar os germes), inseguro, encanado e muito, muito sincero, chegando até ser agressivo. É uma versão turbinada dos personagens neuróticos interpretados pelo próprio Allen.

A história: em um dia, voltando para casa, Boris conhece Melody (Evan Rachel Wood - engraçada no papel de uma loira ingênua - ou seria burra mesmo?), uma menina do interior que chegou em Nova York sem conhecer nada nem ninguém. Ela pede um lugar para passar a noite e ganha um mês, que é extendido até ela achar um emprego e acaba virando casamento. Nas suas diferenças os dois se entendem. Ele fala, ela ouve. E repete, mesmo sem saber muito bem o que está dizendo. E assim são felizes. Até que um dia chega sua mãe do nada, bastante religiosa e vê a filha casada com um senhor mais velho que ela própria... Não conto mais nada, senão perde a graça. Mas tenha certeza que risadas você dará vendo esse filme.

Não tenho um bom conhecimento do cinema de Allen para fazer um comparativo dessa obra com as anteriores. De qualquer forma, dos filmes que eu vi não chega a ser o melhor, mas certamente é muito divertido e uma boa pedida para quem não aguenta mais ver esses blockbusters das férias.

Esse filme continua em cartaz em Recife no cinema da fundação:
Somente domingo (01/08) e terça (03/08) às 20h40, ou seja, se ainda não viu, corre pra ver.

Trailer:


terça-feira, 27 de julho de 2010

Novo blog + Julie & Julia

Nasceu! Meu blog nasceu no dia 27/07/2010 às 17h, horário de Brasília, e regido sob o signo de leão...

Há algum tempo pensava em criar e manter um blog, mas não sabia de que assunto tratar. Então simplifiquei as coisas e vou falar sobre mim (risos). Não, não será um blog autobiográfico no qual eu contarei o que se passa no meu dia-a-dia (para isso já tenho o twitter, mas nada impede que eu faça isso aqui algumas vezes). Falarei de coisas que gosto muito (e que também agrada a vários): viagens, youtube, blogs, notícias, livros, seriados e, principalmente, cinema.

Desde criança amo cinema, é algo que sempre esteve presente na minha vida. Outras artes me encantam, mas nada se compara ao cinema, pois é um caso de amor mesmo. Considero-me cinéfilo por amar ver filmes, discutir e pensar sobre eles, ou seja, viver com eles. Há gente que acha que para ser cinéfilo precisa ter visto todos os filmes de Woody Allen, achar François Truffaut o maior gênio que já existiu e criticar blockbusters. Não faço curso de cinema, portanto não tenho um grande domínio técnico, mas gosto de ler muito sobre cinema, então não sou apenas um admirador da sétima arte, mas também um entendedor.

E por que "Aventuras de um Cinéfilo"? Esse título bem "sessão da tarde" refere-se à minha vida (por isso que eu disse que esse blog é sobre mim), ou seja, um cara solteiro de 20 e alguns anos que mora sozinho numa cidade que não é aquela em que nasceu e cresceu (para não dizer uma cidade estranha, até porque já estou acostumado a morar aqui). E quem mora sozinho sabe como o dia-a-dia é uma aventura, pois não é fácil dar contar de tudo, porém é bem recompensador e divertido, é brincar de ser gente grande e ao mesmo tempo descobrir que sua própria companhia é bastante prazerosa. Acrescento ao termo "aventuras" o fato de eu também amar viajar, e quanto mais mochileira a viagem for, melhor.

E como estou em clima de blog nascendo, a dica de cinema de hoje tem tudo a ver com isso:

Julie & Julia (idem, EUA, 2009, 123 min, direção de Nora Ephron)


Sinopse: Baseado em duas histórias reais, Julia Child (Meryl Streep) é uma cozinheira americana que vive na França na década de 40 e que posteriormente vira uma renomada cozinheira com direito a programa de tv. Nos anos 2000 vive Julie Powell (Amy Adams), perto dos 30 anos de idade, procura um projeto para focalizar as suas energias. Dessa forma, cria um blog relatando suas experiências cozinhando as 524 receitas do livro de Julia Child, num período de um ano.

Farei um comentário breve do filme: está longe de ser um dos meus filmes prediletos, mas mesmo assim é um ótimo filme, daqueles que faz bem ver quando se está meio perdido na vida. Não é o meu caso. Postei esse filme hoje justamente porque a Julie cria um blog e o mesmo começa a fazer sucesso (será que isso será um ótimo amuleto? - risos). Meryl Streep mais uma vez foi indicada ao Oscar esse ano por esse filme (ela é a recordista em indicações) e faz um ótimo trabalho, embora às vezes aparente caricata, mas a própria Julia Child era uma mulher estranha. É um filme que pode provocar certa monotonia em alguns espectadores, porque ele fica num vai e vem na história das duas, mas se for assistido com paciência, verá que é uma ótimo filme.

Então, fica a dica de hoje!